Como enfretar a depressão?
Ministério pastoral e os desafios da depressão
Por: Me. Eni Bertulini Miéres e Drando. João Rainer Buhr
Como enfrentar a depressão?
Sendo a depressão considerada uma doença que pode afetar qualquer pessoa, um de seus principais agravantes é a resistência das pessoas em admitir a própria doença e submeterem- se ao tratamento. Contudo, a possibilidade de cura e de uma vida emocionalmente equilibrada, mesmo quando não alcançada a cura completa, como nos casos crônicos, é possível.
Isso não aconteceu com o pregador Spurgeon, que segundo Eswine conviveu com a depressão até sua morte. Mesmo diante disso, Spurgeon entendeu que eram necessários medicamentos, bom humor, descanso, boa alimentação, reconhecimento de seus limites, acompanhamento pastoral e terapia. Tudo isso poderia, segundo ele, auxiliar.
Todavia, Spurgeon não os colocou em prática consistentemente, devido a sua vida acelerada, excesso de trabalho, má alimentação, descanso insuficiente. Entende-se que recursos como medicamento e terapia não funcionam por si só, precisam estar associados à disposição da pessoa em reformular seu estilo de vida. Da mesma forma, a pessoa deprimida precisa da ajuda de Deus, mas quando está em uma depressão profunda, esquece isso e na sua consciência está somente a sua indescritível miséria.
Constata-se que é necessário a pessoa depressiva entender que não será eficaz o tratamento se a mesma não contribuir. De acordo com a psicóloga Oliveira, em situações de crises, os ministros religiosos devem adotar uma postura de humildade, reconhecendo suas limitações e estarem dispostos a buscar ajuda. Segundo a autora, tratar as próprias questões é essencial, sendo de grande valia a terapia e a supervisão. Oliveira ressalta a existência de recursos disponíveis que oferecem saúde mental, como:
“Cultivar o humor; manter relações de intimidade com pessoas de confiança, como familiares; participar de grupos de apoio e oração; manter um ritmo de vida balanceado, estar ligado a uma comunidade de fé; e quando necessário, buscar ajuda de um profissional especializado” (OLIVEIRA, 2012, p. 90,114).
Cordeiro cita Salmos 23.2-3: “Em verdes pastagens me faz repousar e me conduz a águas tranquilas; restaura-me o vigor”, no sentido de que, mesmo já tendo passado por um período num mosteiro, sabia que precisava andar muito para sair da “floresta”. Seu entendimento é de que necessitava fazer algo mais para chegar até as “águas tranquilas” da cura; não é o suficiente ter o remédio, é preciso aplica-lo. Diante disso, tomou por decisão fazer uma lista com coisas que eram necessárias para revigorar suas forças e encher o seu tanque, com acabar com o ativismo.
Entre as atividades adotadas por Cordeiro como parte de seu novo estilo de vida estavam: os esportes, as viagens, a leitura, o momento devocional, os jantares e os momentos de oração com a esposa, bem como o uso criativo das artes para pregar o Evangelho. Também eliminou atividades que estavam afetando seu bem-estar, a saber: o excesso de aconselhamento, os problemas não resolvidos em casa, o trabalho burocrático desnecessário e gerenciar em vez de liderar. Assim, após certo período, Cordeiro alcançou a cura.
O enfrentamento da depressão não é uma tarefa fácil, todavia, existe esperança de cura e possibilidade de administrá-la. Friesen entende que o tratamento para diminuir a depressão poderá ser através de medicamentos e terapias psicossociais. “Mediante pesquisas realizadas, a psicofarmacologia desenvolveu substâncias altamente especializadas, capazes de interferir no processo sináptico das células nervosas e produzir alterações de comportamento, que facilitam a vida dos doentes”.
Entretanto, o tratamento medicamentoso é parte do processo, que deve estar associado a terapias, seja individual, em grupo ou familiar, aconselhamento, terapia ocupacional ou arte terapia. O autor ressalta que em casos graves, associados ao risco de suicídio, está a electroconvulsoterapia, antigamente chamada de eletrochoque. No Brasil há um forte mito em torno dessa técnica por ter sido utilizada de maneira inadequada.
Hulme concorda com Friesen quanto ao benefício do eletrochoque, ao explicar sobre sua cura através desse método. Segundo o autor, nas primeiras três sessões, por estar muito desidratado, não percebeu resultado, porém, após a nona sessão, foi informado que estava curado da depressão profunda, o que ele mesmo também constatou. Além disso, o autor acreditava que através desse tratamento aconteceu também um milagre, ter passado da morte para a vida. Não somente o seu físico estava restaurado, mas também a sua fé e o seu relacionamento com Deus.
Lawson defende, assim como os demais autores, a necessidade de um tratamento amplo, com diversos recursos. O referido autor acrescenta que é necessário desconstruir o mito de que o indivíduo é capaz de controlar os próprios sentimentos, especialmente em certos tipos de depressão. Assim, o indivíduo com depressão deve ser incentivado a procurar ajuda. Uma das primeiras barreiras a vencer é o orgulho ou o medo. Então, entende-se que a pessoa depressiva precisa aceitar ajuda de outros, assim como também permitir que Deus o cure por qualquer meio que sua graça ache adequado à sua necessidade.
Pastores, ministros religiosos que passaram por momentos depressivos, tais como Cordeiro, Hulme e Spurgeon tiveram resistência em aceitar e buscar ajuda para o enfrentamento da depressão. Diversas foram as formas como cada qual percebeu a depressão na sua vida, assim como suas causas e o enfrentamento da depressão. Cordeiro descobriu que estava gerenciando mais do que liderando em seu ministério.
Hulme percebeu que o seu mau-humor não se tratava de algo comum e que não tinha controle sobre as doenças físicas do seu corpo, Spurgeon entendeu que eram necessários medicamentos, bom humor, descanso, boa alimentação, reconhecimento de seus limites, acompanhamento pastoral e terapia. Contudo não praticou seu entendimento em seu cotidiano em decorrência da sua vida agitada.
O assunto tratado é bastante complexo, assim como as causas encontradas. Os líderes, e ministros religiosos precisam se mostrar sempre fortes, pois são vistos como modelos, e apresentam grande dificuldade em aceitar as doenças e buscar o tratamento para a cura.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo teve como objetivo ser um auxílio para líderes cristãos a entenderem a depressão no contexto psicológico, teológico e bíblico, bem como conhecer os fatores que desencadeiam a depressão: causas ligadas à história de vida e a família, estresse e perdas importantes, desespero aprendido, causas cognitivas, ira, além do pecado e a culpa. Importante mencionar que o peso da depressão recai sobre os indivíduos, as famílias, a sociedade e o ministro religioso, ocasionando a falta de cuidado consigo mesmo, o sentimento de incapacidade e a tristeza profunda e prolongada.
Salienta-se que o transtorno depressivo tem crescido gradativamente na população mundial, e no Brasil não é diferente, tendo um impacto enorme também na vida de ministros religiosos que se tornam doentes e incapacitados para exercer plenamente seu ministério. Neste estudo foi possível perceber que a depressão pode trazer sérios prejuízos na vida dos ministros religiosos acometidos por ela. Contudo, a sua igreja tem a responsabilidade de providenciar o cuidado do guia do rebanho, o seu ministro religioso.
Este trabalho buscou descobrir caminhos confiáveis de enfrentamento que levem à cura da depressão e, principalmente busca ser um recurso para os que querem ajudar os líderes que caíram na armadilha silenciosa do sofrimento causado pela depressão. Vale ressaltar que o tratamento e o enfrentamento da depressão envolvem a aceitação da doença pelos amigos e familiares e não apenas o uso de antidepressivos, também são essenciais a realização de um trabalho de conscientização e o trabalho de profissionais da área, para que a depressão deixe de ser um transtorno estigmatizado pela sociedade.
O líder cristão preparado deve ter consciência das suas limitações e não se envergonhar, buscando auxílio sempre que necessário, vencendo o preconceito, a desinformação, as barreiras internas e externas que dificultam o encontro do auxílio que envolve a escuta, o cuidado dos cuidadores-líderes cristãos, o acompanhamento integrado e multidisciplinar melhorando a qualidade de vida e a contabilização não somente dos efeitos decorrentes da depressão, mas também as alegrias do ministério pastoral.
O processo de tratamento e cura envolve o trabalho de profissionais da área, a compreensão de familiares, amigos e o acolhimento de um conselheiro capacitado e preparado para principalmente ouvir. Em grande parte, os depressivos podem melhorar muito se houver a aceitação por parte dos amigos e familiares. O convívio com pessoas dispostas a ajudar no processo de renovação é essencial. É importante ressaltar o valor da fé em Deus na cura da depressão. Além disso, é fundamental procurar ajuda médica.
A pesquisa não esgotou os estudos sobre o tema proposto, mas apresentou sua contribuição ao conceituar a depressão, mostrar seus sintomas, causas e efeitos, assim como contextualizou a depressão entre os líderes bíblicos e os ministros religiosos, por fim, abordando o enfrentamento da depressão. A relevância deste estudo trouxe conhecimento e um despertar sobre o grande número de casos de depressão na área pastoral. Entende-se, assim, a necessidade da prevenção e o cuidado por meio de mentoria. Dessa forma, acredita-se ser possível perceber alguns sintomas depressivos e evitar que chegue em casos mais graves. Com isso estará não somente contribuindo com a saúde do indivíduo, mas também com o seu ministério.
Diante de tudo que foi pesquisado e apresentado, é importante ressaltar o valor da prevenção da depressão. Com algumas medidas simples é possível evitar que mais pastores e pastoras sofram desse mal. Se as igrejas e os próprios líderes forem conscientizadas que não são super-heróis, muitos males poderão ser evitados. Uma igreja que entende que seu líder necessita de cuidados vai procurar ajudá-lo. Quando um pastor se conscientizar que não é imune à depressão, fatalmente cuidará mais de si mesmo. São medidas simples, mas eficazes na prevenção de doenças como a depressão no ministério pastoral.
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